segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ser tão vago

Me sinto sem mim mesmo... olho o céu num vagar contemplativo, numa contemplação vaga, ainda assim sinto falta de mim. Quando me sinto completo sei que não o estou sendo, porque assim não me sentiria, seria. Sinto um choro mudo, um coro de vozes doridas dentro do peito e um vácuo no coração. Me afundei fora de mim e emergi como os outros. Só esqueci de apagar da memória a falta que me faço. Um cordão tênue aperta meu coração e sinto meu peito opresso pela solidão indefinida. Sei a resposta para as minhas perguntas, só não quero me responder agora. Minhas mãos ainda hão de agarrar aquela estrela que me levará de volta pro meu ser, completo de cheio de mim.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

medley

Edu precisava dançar, sentia internamente as perfeitas vibrações musicais que lhe causava estímulos da cabeça aos pés. Porém através de um movimento voluntário, travou seu esqueleto, prestes a entrar em colapso, devido à discriminação, provável, dos olhos alheios.
Dessa forma, para evitar qualquer constrangimento, seguiu seu caminho, de pés calados, sedentos por uma dança.
André Tostes

Enquanto isso (...)

Gabi trancou o quarto, colocou um CD que já tinha uma camada considerável de poeira e aumentou o volume.
Não estava feliz, nem triste. Mas seu corpo vibrava num compasso ritmado, exato.
Era ânsia de estar além, de cortar o ar, de materializar a poesia que estava dentro dela. Então dançou. Como nunca antes, Gabi dançou.
Parou de sopetão. Corou rápido, abriu um meio-sorriso amarelo...
“droga, esqueci a janela aberta”

“Se eu não puder dançar essa não é a minha revolução” - Emma  Goldman

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Escrito na pedra estava minha oração a mim

A vida que escarneci não escarneço mais. A morte que aguarda por mim, sadia e serena, continua a se desenvolver. A casca que era eu, hoje jáz no solo brotando em algo novo, ou fecundando a terra. Possa eu chorar, mas ver algo novo. Possa eu ver o Pôr-do-Sol, evento infinito em mim. E a sorte que doi ser mais uma vez um caminhante entre as trilhas de corações, seja sorte de viver entre corações. Meu turbulento despertar seja sereno amanhecer. Ontem é hoje e amanhã não é nada fora de mim. Hoje sou mais do que sempre serei, sem nunca imaginar que sou. A vida que sonhei não foi feita para ser sonhada, ser vivida. Acrescento nenhum perdão, porque o pecado, grilhão cruel, feriu meus pés jornadeiros. Negando as glórias, sou maior que todas as conquistas. Se no princípio era o verbo, ainda sou cego, e cego serei até chegar ao fim. Seja feita luz sobre minhas mãos, elas me dizem o que será feito de mim. Mas lembro bem, ainda, não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. Tenho em mim o mundo, fora de mim um mundo. Ipso facto, et cetera.
Abomina a dança o cantor
fazer calar o ter e ser a dor
sentir o frio de viver
ser sem pensar em ver
sem ver o sentido de ter
abomina o calor a luz
o sentido do toque etéreo
diga que o ar puro conduz
a massa defraldada ao réu
sem subjugar o véu tapume
faça de mim um arco
no breu do tempo
para que suma
sem ter existido
abominado tudo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

As viagens de José: o centro do mundo

Ele guarda nos olhos um pedaço de memória perfeita: na mesa, a cachaça e o baralho, e no vento as palavras que dançavam bêbadas relembrando como os amigos conversam. Amigos que quase só se vêem em lembranças como essas.
Ele desejava o centro do mundo, onde tudo acontecia. “O centro do mundo é o México”, dizia seu velho conhecido que ele tão saudosamente escolheu deixar para trás. Mas ele sabia que Antonio sempre esteve certo: “o centro do mundo é o México e um dia eu estarei lá”, repetia enquanto marcava à canivete a triste mesa do seu escritório.
Sentia que havia viajado ao mundo todo dentro de Minas, toda sabedoria espalhada por lá, mas vinha essa frase lhe assombrar o espírito, onde já se viu seu Zé? Saber onde fica o centro e nunca ter ido pra lá. Pra isso precisava de um barco, ele sabia que só assim essa viagem deveria ser feita, na sua idade qualquer estrada deve ser digna da morte, e só o mar é, esse implacável amigo que sempre foi o maior adversário do homem. “Antonio sabia conversar com o mar”, repetia consigo seu Zé, “será que eu aprendo?”

domingo, 27 de setembro de 2009

Eu estava sóbrio, íntegro, inteiro.
Quando o acaso chutou no meu travesseiro
Uma poesia para o Rio de Janeiro

Era um punhado de pedra dura
Praias de areias finas
A Praça XV escura
Assustando o menino de Minas

Era a nossa cachaça bebida na Lapa
Que nos fazia girar saindo do mapa
Para agüentar o frio das escadarias coloridas

Era o vômito, o cansaço, as corridas,
Era puxar da memória
A melhor história
Das piores mulheres das nossas vidas

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Sol

Que dia bonito! Estava lá, ele como um doidivano a esperar por mais beleza, quem sabe até o êxtase... vá lá saber, era considerado louco mesmo. Se bem que era verdadeiramente um banquete aos olhos nobres que o contemplasse, o Céu, o entardecer. Mais divino e aterrador que o amanhecer, trazendo até ele uma pergunta: O que será da noite? Será tão bela e dígna do evento que a precedeu? O êxtase o libertou da vida! Tomado, então, de devaneios próprios dos iluminados, ele se foi. Rumo ao infinito. Com uma estrela na mão e um copo de água, ele fez um milagre. Fez chover estrelas cadentes, multiplicando sorrisos e gozos do povo em geral. O liberto então saiu de cena e tomou seu manto e, vagando como os libertos vagam, foi dormir no canto de uma ave rupestre. E fez chorar o que o viu ascender aos planos inconcebíveis.